O Verdadeiro Valor de Uma Voz por Andreza Araújo
Recebi na semana passada um e-mail da equipe editorial do LinkedIn Brasil com a notícia de que fui reconhecida como Top Voice. Confesso que a mensagem me trouxe uma emoção genuína, não apenas pelo selo em si, mas por tudo o que ele representa após 16 anos escrevendo sobre Segurança do Trabalho.
Já perdi as contas de quantas vezes ouvi que esse não era um assunto capaz de gerar engajamento e que segurança era um tema monótono. Mesmo diante dessas opiniões, decidi continuar. Hoje, receber um reconhecimento exatamente por aquilo que insisti em debater mexeu comigo de uma forma inesperada.
Passada a emoção inicial, surgiu uma reflexão importante sobre a responsabilidade que acompanha o fato de ter uma voz reconhecida. Atualmente, percebemos uma tendência em que muitas pessoas buscam se posicionar como porta-vozes de diversas causas. Nesse cenário, profissionais com contribuições valiosas muitas vezes optam pela discrição, enquanto discursos vazios ganham destaque e esse desequilíbrio é preocupante.
O Custo Oculto do Silêncio
Gostaria de ser muito franca ... em quase todos os acidentes graves que já estudei, havia alguém que possuía informações prévias, notou algo fora do padrão ou comentou informalmente sobre um possível risco. No entanto, no momento de formalizar a preocupação, essa pessoa escolheu não levar a questão adiante.
E as razões para isso são compreensíveis, pois levantar a mão e apontar um problema exige energia, pode desgastar relacionamentos e colocar posições em risco. Muitas vezes, a cultura organizacional é estruturada de forma a desencorajar o relato de problemas.
Nesse contexto, o silêncio não deve ser interpretado como covardia, mas sim como um mecanismo de sobrevivência. O grande desafio é que esse mesmo silêncio acaba custando muito caro para quem sofre as consequências de um acidente no futuro.
Sinto um certo cansaço diante de discursos higienizados sobre cultura de segurança, aqueles que se limitam a apresentações corporativas impecáveis. A verdadeira cultura de segurança é incômoda e exige atitudes firmes, como a decisão da liderança de paralisar uma operação custosa em um momento inadequado ou a humildade de um gestor em admitir um erro. A cultura de segurança precisa ser vivida na prática, sem meios-termos.
O Papel do LinkeIn e a Força da Comunidade
Acho justo também falar sobre a plataforma que nos conecta. Tenho uma relação de muito carinho com o **LinkedIn** ↗, pois foi aqui que encontrei uma comunidade quando a minha área ainda carecia de visibilidade. Descobri profissionais excelentes realizando trabalhos sérios que eu dificilmente conheceria de outra forma.
Receber mensagens de pessoas relatando que um texto meu influenciou decisões importantes em suas empresas é algo que não tem preço. E foi justamente esse lado da plataforma que me manteve ativa durante todos esses anos, pois é um ambiente onde profissionais de diferentes níveis podem ser ouvidos por quem toma as decisões.
Se hoje recebo o reconhecimento como Top Voice, é porque muitos profissionais caminham ao meu lado nessa jornada. Penso em cada engenheiro de segurança que compartilha suas ideias, em cada técnico que divide aprendizados e em cada consultor que dedica seu tempo livre para escrever conteúdos que podem salvar vidas. Vocês são a base que sustenta essa pauta tão importante.
Uma Reflexão Necessária
Para finalizar, não deixarei uma frase de efeito, mas sim uma reflexão. Quantas vezes neste ano você presenciou algo que sabia estar errado e optou por não se manifestar, seja no ambiente de trabalho ou diante de uma decisão que poderia gerar problemas futuros, apenas para evitar conflitos com a liderança.
A verdade que aprendi ao longo desses 16 anos é que a cultura de segurança não se transforma por meio de grandes discursos, mas sim pelas atitudes de pessoas que, em momentos cotidianos, decidem não aceitar o inaceitável.
Você se torna a voz no exato momento em que escolhe se expressar quando seria mais fácil permanecer em silêncio, não apenas nas redes sociais, mas na vida real. Convido todos a continuarem essa conversa comigo, pois ainda temos muito a debater.